Talentosos, perfeitos, bonitos, cheirosos, charmosos e modestos:

domingo, 21 de novembro de 2010

Ônibus

O ônibus está cheio, mas está vazio. Cheiro de minutos atrás sendo transposto pelo odor de daqui a pouco. O calado ao meu lado tagarela silencio. O vento sopra, o vento chora.
Tudo o que eu queria era um condutor amigável, que me perguntasse, sorridente: -Esta é tua amada? Fica com ela, mancebo contente! Aviso tua mãe do atraso, e omito tuas peripécias.
Obrigado, Severino-da-mão-no-câmbio, mas não é permitido. Mamãe jaz na poltrona, à luz de meia vela, sangrando o relógio com os olhos, esperando minha pessoa.
É tempo perfeito para realizar meu sonho (infantil, confesso) de romper o lacre da ventana, saltar para longe do motorizado, e correr, banhado de luar, até a sombra vermelha no muro esverdeado, e mirar a íris verde no quarto avermelhado.
Quero sonhar o meu sonho, onde se faz um cinema. Um filme de amor com a atriz favorita. Peço ao divino que a tela intocável torne-se teatro, onde toco-lhe a tez, onde o sonho não sonha; onde a imagel é real, e o líquido jorra.
Mas acordo do sonho. Estou descendo na parada pública. Faço dos três degraus uma escadaria ao inferno. Desço pra dizer, de vez, que não estou mais lá: sem envolcro, sem calor de corpo frio. Obrigado, ônibus!, real barca do tinhoso!
269 razões pra correr de volta.

5 comentários:

Vanessa disse...

269 razões para ir ao encontro do corpo quente de boca entreaberta; 2,69 razões para se distanciar dele.

Leandro disse...

se tu me ensinar a escrever bonito assim eu estudo química contigo, ja é?

Marcos2 disse...

Cara, adorei!

Luquez disse...

Moleque,cada dia eu fico mais orgulhoso de dividir blog com você.

ritaloureiro disse...

"Peço ao divino que a tela intocável torne-se teatro,"

Isso.